quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Entre o Fake e o Cool


Quando vou comer fora de casa em São Paulo, vez ou outra acabo testando um restaurante francês. Exceções a parte, ao invés de um retorno à Paris, me vejo sentado numa cópia exata do mesmo restaurante francês que fui no mês passado: preço salgado, gente nova rica e afetada (ou pior, hype), comida medíocre(sempre as mesmas variações do tema confit de canard e stake au poivre) e, le pire, decoração "estilo bistrô paulistano", mesa baixa, com toalha branca, velas e quadrinhos de Paris...

A primeira coisa que os restaurateurs de São Paulo deveriam saber é que bistrot, na França, é um lugar onde você é atendido pelo dono e pelos filhos do dono "a paisana", não por garçons vestidos de terno, comer pratos inéditos com o que tem de fresco no dia a um preço entre o barato e o razoável e, o principal, a decoração, de preferência diferente de uma casa pra outra, não inclui necessariamente toalha de mesa passadérrimas nem quadrinhos com o Champs-Élysées estilizado.

Isso tudo pra falar que aqui em São Paulo temos essa péssima tradição de pegar uma coisa original, como os bistrôs, e transformá-los em algo caro e sem originalidade. É a mentalidade shopping center. Posso dar outros exemplos: os bares estilo carioca da Vila Madalena, todos exatamente iguais, as novas casas de kebab (donner kebab na europa é comida de terceira pra matar a larica pós balada, não comida chique pra comer com garfo e faca e soda italiana), as hamburguerias NY wanna be e as feirinhas hypes de rua. É a mentalidade "rede", de rede de restaurantes mesmo, que ultrapassa o próprio conceito de rede e se transfere praquilo que não queria ser rede. Difícil? Para exemplificar, Árabia e Almanara, concorrentes, têm a mesma exata comida.

Tudo fica pasteurizado, as idéias se repetem e acabam saturando. Ao boom de bares cariocas seguiu o boom de baladas indie rock na baixa Augusta, seguido pelo boom de kebaberias, boom de temakerias e agora descobri o boom de "Entrecôtes", sim depois do novo restaurante do Olivier, que tem menos de seis meses, já apareceu outro com a mesma idéia de prato único contra-filé, batatas, molho especial...

Ainda tem todas as churrascarias idênticas com garçons gaúchos e hostess de chita, todas as cantinas idênticas com pratos pesados e todas as mesmas baladas de rico da Vila Olímpia com a mesma Veuve Clicquot a 500 reais. Aquilo que era Cool e “original” em menos de seis meses vira Fake. Uma cidade que tinha tudo pra criar novas idéias exatamente pela sua mistura cultural, seu melting pot, acaba criando um monte de idéias em "redes" que se adaptam a mentalidade pequena do cliente com o medo de darem prejuízo ao dono. Se uma coisa da certo o negócio é copiar, não importa que aquilo seja totalmente diferente da idéia original. E assim caímos dentro de nossos próprios clichês.

2 comentários:

Marcela Leon disse...

Fazer diferente por mais de 6 meses numa cidade como SP é um desafio. Mas quando algo novo abre o jeito é curtir enquanto os fakes não vem.
E mesmo depois, ainda dá pra diferenciar o que foi uma boa idéia e o que foi feito pra explorar uma boa idéia.

Guilherme Bittar Celestino disse...

Isso é verdade. O problema é quando a boa idéias se adapta aos fakes por causa do preço por ex.