segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Palmas, pra que te quero?


O artista tem um difícil processo de relação com o fracasso. E o público sabe disso, tanto que raramente deixa de bater palmas ao final de um espetáculo, seja ele uma exibição de filme em festival, na qual muitas vezes se bate palma apenas para uma tela, já que o diretor sequer está presente, seja ele uma peça de teatro num beco da praça Roosevelt. A verdade é que se criou a idéia de que mesmo que a peça, concerto, ou mesmo palestra, seja ruím não se pode deixar de bater palmas pelo esforço daquele que se apresenta. Vaias? Jamais!

Se no Brasil essa idéia é seguida a risca, na Europa a coisa é um pouco diferente. Não, não que o público vaie ou jogue tomates nos artistas, ou telas de cinema, como se fazia nos áureos tempos em que o público tinha mais senso crítico e menos educação. Mas pelo menos o artista consegue discernir pela intensidade das palmas e pelo levantar ou não do assento, se sua apresentação foi satisfatória ou não. Aos 12 anos assisti uma bela montagem da opereta comica "Die Fledermaus" de Johann Strauss no Opéra Bastille em Paris. Nessa época não tinha entendimento do assunto o bastante para saber se foi uma boa montagem ou não, mas fiquei estupefato com o fato de que ao final, o severo público europeu permaneceu sentado enquanto batia uma, e apenas uma, saraivada de murchas palmas, algo que nunca tinha presenciado no Brasil, onde o costume é sempre se levantar e bater muitas palmas. Frequentemente até pedir o "biz".

Aqui o público aplaude entusiasticamente, alguns poderiam dizer cordialmente, todo e qualquer tipo espetáculo, como se o fato do artista ter "tentado" já seria digno de tal merecimento. Isso não é bom nem para o artista, que não consegue medir a qualidade de sua exibição e nem para o púbico, que de tal maneira incentiva mediocres a continuarem no meio, deteriorando o universo artístico nacional.

Por outro lado, a tendência é que, com o passar do tempo, as coisas comecem a mudar, já é possível ver maior grau de exigência em lugares como a Sala São Paulo, onde o público mais calejado já não se entusiasma tanto com qualquer apresentaçãozinha da Filarmônica de Berlim ou Israel. Bravo!

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