quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Do inverno


Depois de 2 anos e 3 meses voltei a Paris no final de 2010 para reencontrar amigos e rever minha cidade favorita. Tudo transcorreu de forma adequada apesar dos problemas de transporte causados pela neve, e dos quais consegui fugir na maior parte das vezes.O que me impressionou depois de tanto tempo longe é que, ao contrário do que esperava, nada mudou.

Isso não significa que a França não esteja em crise, como todo o resto da Europa. Problemas estruturais devido ao tamanho gigantesco do estado-providência, o fracasso do Euro e da utópica unificação européia, o aumento do desemprego e a diminuição do poder de consumo são assuntos em pauta em qualquer roda de amigos, as"soirées". O que me surpreendeu é que, apesar de todos os problemas, faz-se de conta que eles não existem realmente. As luzinhas de Natal estavam lá, não em toda cidade como antigamente, mas estavam. Os restaurantes ainda tem seu público cativo, apesar do vinho da casa no "pichet" ocupar o lugar da garrafa de um Bordeaux ou Languedoc. Os salários diminuiram e ter um CDD, contrato de duração determinada, já está de bom tamanho. O sistema de transportes ainda é exemplar, mas é só nevar um pouco que tudo para e mostra-se fissuras, como a falta de glicol para descongelar aviões e pistas no Roissy Charles de Gaulle, ou a incapacidade do Eurostar em assegurar o serviço e não repassar direito informações aos usuários em dias de clima turbulento. Vive-se como se tudo estivesse normal, esconde-se debaixo do tapete os problemas internos e adia-se reformas importantes.

Obviamente a Europa nunca vai ser "terceiro mundo", mas percebi uma diminuição na qualidade dos serviços e na satisfação dos franceses. Talvez seja apenas algo temporário ou subjetivo. A verdade é que os anos gloriosos ficaram para trás. A França, e toda Europa, precisa rever suas políticas internas e procurar um equilíbrio entre o estado provedor e a dinâmica capitalista atual, além de conseguir inserir as novas levas de imigrantes. Os tempos são difíceis, mas não dá para duvidar do poder de recuperação de uma sociedade tão sólida e educada.

4 comentários:

Marrá B. disse...

Gui!
AMEI seu blog! Vou lê-lo sempre que puder!
Vc escreve maravilhosamente bem!
Bjão
Marrá

Guilherme Bittar Celestino disse...

Obrigado Marrá!!!

Jonathan Parker disse...

Ola Guilherme! Tambem sou da area de comunicação e confesso que tbm sinto uma fixação enorme pela cultura francesa. Assim como vc, estive la durante o começo deste ano pela primeira vez aos 19 anos, e pra mim foi a experiencia mais perfeita du monde! Confesso q depois q voltei da França, fiquei vasculhando na internet sites e mais sites e foi qdo achei o teu blog. Meu caro, tua escrita é divertida, informativa e cultural (absurdamente). Me identifiquei desde com as lojas, bares que fecham super cedo até sobre sentir saudades de Paris mesmo sendo cara e tudo mais. Meu parabens pela idéia! J'espere que tu peux écrire de plus en plus sur la notre douce France.

Guilherme Bittar Celestino disse...

Jonathan muito obrigado.

O dia em que eu voltar para lá terei mais do que falar, de longe fica difícil uma visão que não seja direcionada pelos meios de comunicação!

Abraços